quinta-feira, 22 de maio de 2008
Espelho
O Homem que se olha demoradamente, distorce-se.
O espelho confunde. E dissolve.
domingo, 11 de maio de 2008
Discutir
Ontem tive oportunidade de ver Lions for Lambs, o mais recente filme de Robert Redford.É um filme "simples" que faz um pouco o debate da presença dos E.U.A. fora das suas portas. Mais do que isso, debate o conceito de cidadania.
Sacudindo alguns lugares-comuns evitáveis, têm aqui o que mais se aproxima, quanto a mim, de um bom "filme pedagógico". É bastante diferente daquilo que eu chamo "filme moralista" onde se defende uma perspectiva em vez de por duas em discussão. Exemplo disso é Crash -- panfleto anti-racista num chorrilho de clichés de gosto muito duvidável. Foi filme que deixei a meio...
Esta linha que separa o "filme-propaganda" do "filme-debate" é muito ténue, bem sei. Imparcialidade é coisa que não existe dado que o enredo é-nos apresentado pela perspectiva do autor. Mas há aqueles que suportados pelo politicamente correcto nos impõe de maneira descarada, quase obscena, a sua mensagem. Outros há que nos dão espaço para o pensamento, mesmo sendo claras as suas ideias.
Enfim, acaba tudo por ser uma questão de gosto...
sábado, 26 de abril de 2008
Acerca dos Poetas!

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
José Luís Peixoto in Gaveta de Papéis
quinta-feira, 17 de abril de 2008
América
Primeira frase do épico de Coppola. Uma ironia a dar o mote à saga de uma família, e de um país.
The Godfather é uma história dos Estados Unidos, das suas misturas, do mundo que desagua em Nova Iorque no início do século passado. Mundo que acena à senhora de tocha na mão, mundo que procura o sonho. País de uma liberdade selvagem, de civilização construída na violência. País de uma moral hipócrita.
América da família, América da sobrevivência.

“We’re are both part of the same hypocrisy, senator, but never think that applies to my family”
Don Michael Corleone - The Godfather II
sexta-feira, 11 de abril de 2008
segunda-feira, 7 de abril de 2008
To Be Or Not To Be
Seinfeld: …so the show would be about my real life; and one of the characters would be based on you.
Kramer: No, I don’t think so.
Seinfeld: What do you mean you “don't think so”?
Kramer: I don't like it.
Seinfeld: I don't understand: what don’t you like about it?
Kramer: I don't like the idea of a character based on me.
(…)
Kramer: I tell you what: you can do it on one condition.
Seinfeld: What ever you want.
Kramer: I get to play Kramer.
Seinfeld: You can’t play Kramer.
Kramer: I am Kramer!!
Seinfeld: But you can't act!
Kramer: Wow!
sexta-feira, 4 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
Obscenidade
São sempre as imortais palavras de Marlon Brando, na pele do misterioso Coronel Kurtz, que me lembro quando se fala de guerra. Isto a propósito da efeméride recente da Guerra no Iraque.Mais do que qualquer dissertação sobre a barbárie que é a guerra, e o retrocesso civilizacional que ela significa, deixo a palavra aqui a dois autores que muito aprecio com posições antagónicas sobre o assunto: Pacheco Pereira (aqui e aqui) e Daniel Oliveira (aqui) escrevem sobre os últimos cinco anos deste terrível conflito.
E ultrapassando todos os conceitos morais fica a arrepiante frieza dos números:
- 150 mil a 600 mil mortos iraquianos (600 mil segundo o director do Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública eresponsável pelo inquérito publicado na Lancet, Johns Hopkins);
- 3 987 soldados americanos mortos no Iraque;
- 4 295 soldados mortos no Iraque (1724 mortos com bombas de berma de estrada);
- 196 mil contractors no Iraque e no Afeganistão;
- 5,1 milhões (em 27 milhões) de iraquianos deslocados. Apenas 20% recebe alguma ajuda de agências da ONU ou de ONG;
- 2,7 milhões de deslocados no Iraque;
- 1,2 milhão de refugiados na Síria;
- 500 a 600 mil de refugiados na Jordânia;
- 43% dos iraquianos vivem com menos de um dólar por dia;
- 12 horas de electricidade por dia na capital de um dos maiores produtores de petróleo do Mundo;
- Um litro de gasolina custa 350 dinares (há dois anos custava 20 dinares);
- 25% a 40% de taxa de desemprego;
- Custos directos e indirectos de 3 milhões de milhões de dólares para os EUA (segundo Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001);
- Armas de destruição em massa descobertas: 0
"We train young men to drop fire on people. But their commanders won't allow them to write "fuck" on their aeroplane because it's obscene"
domingo, 30 de março de 2008
Do Cinema e da Poesia-Tributo a Charlie Chaplin e...Muito Mais!
CANTO AO HOMEM DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
Charles Chaplin
Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama.
Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
políticos acadêmicos; convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,
aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
força
do
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos.
quinta-feira, 27 de março de 2008
Mulheres
Há aquelas que nos cativam pela simples presença. Pela maneira como guiam o corpo pelos espaços. Pelo gesto, pelo toque, pelo olhar. Mulheres que muitas vezes ficam longe, afastadas pelo nosso encanto. Mulheres que moldamos com o nosso desejo.
Outras há que surpreendem quando abrem a boca. Após um silêncio desatento, surge uma torrente interior completamente nova. Um outro mundo que se abre e nos confunde. Mulheres por quem nos apaixonamos. A companhia nesse novo mundo que nos abala.
E depois há as outras... Outras que não nos apercebemos. Falam baixinho e ficam ao pé de nós sem darmos por elas. Mulheres que nos ensinam a amar. Pessoas completas que caminham connosco no tempo. Aquelas que nos farão melhores, mais Homens.
Mulheres que chegam no início dos dias. Mulheres que se transformam umas nas outras, num corropio interminável. Mulheres que brilham, ou que nos aquecem lentamente. Ou então que se precipitam no nosso andar.
Mulheres que nos abandonam, à noitinha, sem darmos por ela.
Ou então...




