Para os que se entretêm com intriga política, para os saudosos de The West Wing ou para os curiosos de História Contemporânea, não percam isto aqui em cima. Factos verídicos, diálogos fabulosos, elenco de "luxo" e um delicioso Philip Seymour Hoffman, tudo numa hora e meia de filme perfeitinho para um final de Domingo.
Freud olha-se. Lá dentro somos como cá fora: variedade de tons e de texturas estranhamente uniformes. Corpo como uma mistura impossível de cores e de ângulos tal qual os neons que surgem quando fechamos os olhos com força.
O Homem que se olha demoradamente, distorce-se. O espelho confunde. E dissolve.
Ontem tive oportunidade de ver Lions for Lambs, o mais recente filme de Robert Redford.
É um filme "simples" que faz um pouco o debate da presença dos E.U.A. fora das suas portas. Mais do que isso, debate o conceito de cidadania. Sacudindo alguns lugares-comuns evitáveis, têm aqui o que mais se aproxima, quanto a mim, de um bom "filme pedagógico". É bastante diferente daquilo que eu chamo "filme moralista" onde se defende uma perspectiva em vez de por duas em discussão. Exemplo disso é Crash-- panfleto anti-racista num chorrilho de clichés de gosto muito duvidável. Foi filme que deixei a meio...
Esta linha que separa o "filme-propaganda" do "filme-debate" é muito ténue, bem sei. Imparcialidade é coisa que não existe dado que o enredo é-nos apresentado pela perspectiva do autor. Mas há aqueles que suportados pelo politicamente correcto nos impõe de maneira descarada, quase obscena, a sua mensagem. Outros há que nos dão espaço para o pensamento, mesmo sendo claras as suas ideias.
Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um. Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.
As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes, por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.
Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás. São sempre os últimos a encontrar estacionamento para o carro, mas quando chove não se molham,
passam entre as gotas de chuva. Não por serem mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos. A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.
Primeira frase do épico de Coppola. Uma ironia a dar o mote à saga de uma família, e de um país.
The Godfather é uma história dos Estados Unidos, das suas misturas, do mundo que desagua em Nova Iorque no início do século passado. Mundo que acena à senhora de tocha na mão, mundo que procura o sonho. País de uma liberdade selvagem, de civilização construída na violência. País de uma moral hipócrita.
América da família, América da sobrevivência.
“We’re are both part of the same hypocrisy, senator, but never think that applies to my family” Don Michael Corleone - The Godfather II
São sempre as imortais palavras de Marlon Brando, na pele do misterioso Coronel Kurtz, que me lembro quando se fala de guerra. Isto a propósito da efeméride recente da Guerra no Iraque.
Mais do que qualquer dissertação sobre a barbárie que é a guerra, e o retrocesso civilizacional que ela significa, deixo a palavra aqui a dois autores que muito aprecio com posições antagónicas sobre o assunto: Pacheco Pereira (aqui e aqui) e Daniel Oliveira (aqui) escrevem sobre os últimos cinco anos deste terrível conflito.
E ultrapassando todos os conceitos morais fica a arrepiante frieza dos números:
150 mil a 600 mil mortos iraquianos (600 mil segundo o director do Centro de Resposta a Refugiados e Desastres da Escola de Saúde Pública eresponsável pelo inquérito publicado na Lancet, Johns Hopkins);
3 987 soldados americanos mortos no Iraque;
4 295 soldados mortos no Iraque (1724 mortos com bombas de berma de estrada);
196 mil contractors no Iraque e no Afeganistão;
5,1 milhões (em 27 milhões) de iraquianos deslocados. Apenas 20% recebe alguma ajuda de agências da ONU ou de ONG;
2,7 milhões de deslocados no Iraque;
1,2 milhão de refugiados na Síria;
500 a 600 mil de refugiados na Jordânia;
43% dos iraquianos vivem com menos de um dólar por dia;
12 horas de electricidade por dia na capital de um dos maiores produtores de petróleo do Mundo;
Um litro de gasolina custa 350 dinares (há dois anos custava 20 dinares);
25% a 40% de taxa de desemprego;
Custos directos e indirectos de 3 milhões de milhões de dólares para os EUA (segundo Joseph Stiglitz, Nobel da Economia em 2001);
CANTO AO HOMEM DO POVO - Carlos Drummond de Andrade
Charles Chaplin
Uma cega te ama. Os olhos abrem-se. Não, não te ama. Um rico, em álcool, é teu amigo e lúcido repele tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos o que há de água, de sopro e de inocência no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos que cultuamos, falsos: flores pardas, anjos desleais, cofres redondos, arquejos políticos acadêmicos; convenções do branco, azul e roxo; maquinismos, telegramas em série, e fábricas e fábricas e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras. Ficaste apenas um operário comandado pela voz colérica do megafone. És parafuso, gesto, esgar. Recolho teus pedaços: ainda vibram, lagarto mutilado.
Colo teus pedaços. Unidade estranha é a tua, em mundo assim pulverizado. E nós, que a cada passo nos cobrimos e nos despimos e nos mascaramos, mal retemos em ti o mesmo homem, aprendiz bombeiro caixeiro doceiro emigrante força do maquinista noivo patinador soldado músico peregrino artista de circo marquês marinheiro carregador de piano apenas sempre entretanto tu mesmo, o que não está de acordo e é meigo, o incapaz de propriedade, o pé errante, a estrada fugindo, o amigo que desejaríamos reter na chuva, no espelho, na memória e todavia perdemos.